Mães de Acari:Uma história de protagonismo social

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Impossível parar de ler; impossível não se emocionar; impossível resistir à energia contagiante das Antígonas brasileiras: o livro de Carlos Nobre sobre um punhado de mulheres extraordinárias que se tornaram conhecidas como as mães de Acari é um retrato magnífico de uma luta titânica por Justiça. O palco é o Rio de Janeiro. Um Rio que conhecemos e ignoramos; tão próximo e tão distante. Não a cidade maravilhosa, cartão-postal folclórico, arena idealizada da sociabilidade exuberante que consagra nossas tradições sincréticas, tolerantes e cordiais. Rio duro, acre, sombrio. Rio cruel e falso. Capital da hipocrisia; dos poderes podres; sede inóspita do carnaval de cumplicidades. Mas também o lugar da coragem cívica mais ousada, do ardor ético mais destemido, do amor sem-barreiras, da lealdade que não mede custos e riscos, da fidelidade aos princípios. Rio-que-nos-orgulha, mergulhado nos poros da cidade-que-nos-envergonha. Lado a lado, unha e carne, como duas faces da mesma realidade. Unha e carne, feito mãe e filha. Lado a lado, como filho e mãe. Os vínculos transcendem a morte: elas querem enterrar os despojos de seus filhos e desejam a punição dos culpados; reclamam os cadáveres escondidos pelos criminosos sádicos do grupo de extermínio, acobertado por instituições e políticos. As nobres mulheres pobres de Acari iluminam as trevas de nosso país brutal, insistindo para além de toda sensatez acomodada, exatamente como as locas da Plaza de Mayo. Por isso, em sua santa insensatez, em sua apaixonada persistência, elas são a voz de quem está emudecido pelo medo, de quem está calado pelo ceticismo, de quem se deixou imobilizar pela sensação de impotência. Não há testemunho maior, na história recente de nosso país, de mobilização popular tão pura e genuína por Justiça, pelos direitos humanos e contra a barbárie policial, endossada por autoridades omissas e patéticas. Carlos Nobre é nosso credor: devemo-lhe gratidão por compartilhar conosco, seus leitores, o conhecimento profundo sobre protagonismo popular e por não permitir que nossas esperanças se percam e que esmoreça nossa vocação solidária. O leão do detetive-matador que se alimentava de suas vítimas – personagem verdadeiro –, é também o signo da demanda feroz por ordem-a-qualquer-preço. Precisamos domesticar essa vontade selvagem, cuja raiz é o medo, capturado na linguagem da intolerância e do racismo. [Luiz Eduardo Soares Antropólogo e cientista político Professor da UERJ e da UCAM]

Livro de Carlos Nobre

Editora Pallas

R$ 28,00

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Published in: on agosto 16, 2007 at 10:13 pm  Deixe um comentário  

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