O Espaço do Oprimido nas Literaturas de Língua Portuguesa do Século XX: Graciliano Ramos, Alves Redol e Castro Soromenho

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Os romances analisados neste trabalho põem em evidência a descaracterização daqueles que representam os oprimidos.  No primeiro romance, Vidas Secas, o sertanejo se encontra perdido num mundo não desejado, desconexo e repleto de “aves que iam comê-lo” (VS. p.113).  A caatinga surge na narrativa como negação do movimento-mudança sonhado por Baleia no leito de morte.  O sonho do animal, simbolicamente falando, representa o desejo de humanização daquelas ‘vidas’ que estão ‘secas’ por dentro e por fora, já que desprovidas da linguagem singular, que dá forma e movimento às suas atitudes, vivem num mundo imutável, repetindo gestos ancestrais naquele espaço seco e duro, que impede os ‘matutos’ de desvendarem a realidade circundante.

O povo eleito, simbolicamente de passagem pela Lezíria, tem em Gaibéus um narrador onisciente, que conhece a origem e o destino de cada um.  Sendo assim, o povo que outrora fez história foi reduzido, metaforicamente, à condição de alugado, que emigra de tempos em tempos para conseguir, num trabalho exaustivo, o pão e o vinho.  Paralelamente à atividade do grupo, a narrativa recupera textualmente os pensamentos do ceifeiro rebelde que “não era rabezano nem gaibéu” (G.p.202), mas carregava consigo um ideal capaz de transformar aquele presente doloroso e estagnado de homens que nasceram do barro da terra,  mas não foram registrados nela

Terra Morta traz à tona as mazelas deixadas pela colonização.  A narrativa resgata, singularmente, as vozes de negros que estão submetidos ao ‘chicote de cavalo-marinho’, bem como de brancos e mestiços, que também são vítimas, direta ou indiretamente, do mesmo chicote, símbolo gerador da ordem colonial.  Terra Morta não efetiva, concretamente, no tempo narrativo, o movimento-mudança da história que se quer nova, mas explicita a descaracterização de negros, brancos e mestiços no solo morto de Camaxilo, bem como a tensão instaurada pelo aniquilamento físico, social e econômico da comunidade lundense, pela prática colonialista que se quer morta em prol da reorganização nacional.

Livro Jurema de Oliveira

Editora: União dos Escritores Angolanos (UEA)

R$ 28,00

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Published in: on abril 27, 2009 at 5:40 pm  Deixe um comentário  

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